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INQUIETO

"Falo o que sinto e sinto muito o que falo - pois morro sempre que calo." (Affonso Romano de Sant'Anna_Que País é Este?)

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Como a gente

Pouco importa
Por inteligente
Importa mesmo
Por ser gente

Pensar com os dentes
Tropeçar no caminho
Afundar navios
Sem ter aguardente

Ao mostrar assovios

Em suaves desvios

É que nos afinamos


Sem pensar no peso

Do desleixo

Sem deixar de pensar

Nos seixos

Que de rolados

Já não os queixa


Sem mente

Se inteligente

Há pra tudo

Um jeito

E qualquer sujeito

Tem sua razão 


Importa mesmo

é ser gente

Ter desvios

O queixo nos dentes

Por não ser sujeito

Ao que faz deleite

Do que foi, então 


Não nos deixe

Sem ser mar

Ao peixe

Nem dar cara

Aos tapas

Que afagam

E afogam


Ser inteligente

É ler 

No meio de toda gente

Sem ter nem noção 

sábado, 12 de julho de 2025

convicto

Tenho a mais absoluta certeza que estou enganado!
Tive outras convicções, ao longo de infindáveis anos, em que me debrucei sobre o conhecimento. 
O mais preciso que já foi produzido. 
Por desconhecidos,
mas com nomes e endereços próximos do concreto.
Ainda que não possa dizer seus sobrenomes, é inegável que aquelas letras foram escritas, postas sobre papiros.
Se em grego, hebraico ou troiano... com vírgulas ou apóstrofes, não faço óbices às certezas que criaram.
E sobre as quais afirmo, e reafirmo:
tenho a mais absoluta certeza que estou enganado!
Não há no mundo uma evidência do que estou dizendo, nem há palavras que possa escrever para negar 
ou mesmo afirmar.
Isso que é o objeto do nosso questionamento!
Tô te falando!
O que penso é o que preciso, e isso é pouco preciso. 
E dito isso, posso lhe afirmar, ca-te-go-ri-ca-men-te: tenho certeza que estou enganado!
E isso nem está muito certo.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Afeito

Tinha uma perna quebrada
e vontade
Você tinha vontade
e requebrava

Um olho no outro
é verdade
Temos desejo
Um suingue que arde

Pego em sua anca,
encosto em seus seios,
um alarde

Eu sei, você sabe
não é tão tarde
Forma o desejo
e damos um beijo

Me aprochego
olho no fundo do leito
Atravesso seu rio
sem nado

Um dedo, dois dedos,
meu corpo inteiro
e, sem ser
covarde
lhe ofereço a boca

No que já é tarde
Cada dor
dobra a idade
dos seus beijos
da sua boca
na minha boca

Em segredo
lhe tenho no peito
Inteira
dentro de um sujeito
sem jeito
imperfeito
e refeito

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Bora

            B   ORA
ORA   ORA   ORA
DEM   ORA   ORO
ÉHO   RAB   ORA
CHO   RAT   ORA
AGO   RAF   ORA

HOR   AAG   ORA
MOR   AAM   ORA
FUR   AAB   OLA
ROL   AMO   RRO
LHE   DEV   ORA

ORA   ORA   ORA
AGO   RAF   ORA
    AGO   RAM   ORRo   


quinta-feira, 24 de abril de 2025

por_onde_houver_chao

Por onde houver chão 
Ando meus passos
Por trilhas desviadas
Piso fofo na areia 
E molho os pés n'água 

Por tamanha imensidão 
Caminho sem pressa
Que os passos são imprecisos
E os percalços fazem moinhos

Deixo o peso após o vento
E as rajadas dão movimento
Ao que se queria inerte

Agora, vôo sem asas
Deixo o cansaço pra trás 
E não lamento as trapaças 
Pelas que corri demais

No calcário dos recifes
Sangro meus dedos
E por deslize
Faço coragem
Dos meus medos

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Leoa

Compreensão assim, sem fim
pouco se vê na vida
Você e o seu cuidado comigo
me dão abrigo
Assim durmo sem medo
Tudo o que conto pra si
é desprovido de limites
E os seus ouvidos dão chance
aos meus sons
O que me conta
me balança e alavanca
Seu corpo rijo e olhar esperto
tomam o espaço
por concreto
O meio em que nos encontramos
envolve as mensagens que trocamos
e quando passam as nuvens
o seu jeito destoa
Você navega o tempo
e impõe os gestos
com os olhos de Leoa.

Seu sol

 Eu sou 
seu sol
sem som
Sou solo
sedução
Sem sono
e sensação
Sou ser 
se é
no seio
a solução

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Escafandro

Sob um forte calor
frente a boa piscina
tenta não se indispor
e despir-se de si

Com os dedos dos pés
mede o tempo e a brisa
e por tanto, ao revés,
põe seus medos por cima

Já suado e sem cor
pisa forte na beira,
mas de tanto pensar
põe mais fé na traseira

Mas o calor e desejo, 
que lhe comem por dentro,
rompem o seu dissabor
e lhe entregam ao vento

Sente que o seu pudor
pede fim ao seu pranto
e com armas e suor
põe seu corpo pra dentro

 

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

A palavra voa

Nas palavras
se arvoram
os pássaros 

arredios

Os que voam
sem se ver,
sem se notar

As letras guardam
mais plumas
que o agora

E o depois
é voo    

É pouso breve
na testa
do que se quer
vento

Eu vejo hoje
e por aí 
que o canto
não mete pudores
aos tantos
desejos
dos remadores

Notícias Suas

Eu preciso ter notícias de você
Saiu assim, sem me procurar.
penso o dia todo em te ver,
está em cada canto do meu lar.

Me avise se chegou bem,
quando conseguir ligar
Seja cuidadoso em suas ruas,
não me deixe sem notícias suas

Quando viermos à nossa conversa,
desejo entender a sua pressa
E seja o que tenha a me dizer,
eu digo que não posso te esquecer

Meus medos sumiram no instante
em que seus dedos tocaram minha fronte.
Agora, sinto cada beijo que não dei,
como espelhos que escondem o horizonte.

Seja cuidadoso em suas ruas,
mas não me deixe sem notícias suas.

3irMãos e Mais

Sem obstáculo,
não trocaria a bota,
E num arremedo,
topava o dedo
e ficava na estrada.

Sendo o piso
sempre firme
e liso,
meus pés não teriam casca,
não teriam viço.

Em cada ladeira em que piso,
por toda subida que passo,
aumento o compasso,
estendo o caminho
e procuro força
na mina
da panturrilha.

Mas se a pedra não ferisse,
se a terra não exigisse,
o corpo seria o mesmo,
sem histórias escritas na pele,
sem lições gravadas no osso.

O trilho que sigo
forja mais que passos,
Ergue pontes
entre os percalços.

É nas curvas,
nas quedas,
que o espírito se alinha
ao destino.

Cada dor,
cada rastro,
marca o chão,
e faz do caminho
a chegada.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Eco

na perfeição 
destacam-se 
os defeitos


de ternos

e alinhados

nos afetos


um traço 

na areia

grita o eco


e o que era

ar

é veia


da ave

sua pluma

ao vento


as flores

perdem suas pétalas 

até as flores

Alto do céu

Vou infernizar com felicidade, e se puder, alguém me trague novos termos e frases, que costuro em versos e fatias, sem vírgulas, sem regalias. Quem não amanhece na praia não viveu a noite, não sentiu a brisa varrendo o cansaço, nem ouviu as ondas apagando pegadas. Não corro, que estou aperreado, mas quem busca a pressa só encontra o desejo.
Mais vale a morte quando se quer vida que a vida quando lhe quer morto. Quem não tem pancinha vive em tempos obscuros, onde a fome se disfarça em moda e o espelho engana os olhos. Meu relógio é uma prisão, um ano de vida por notificação. O tempo não mede passos, não cobra abraços, não pergunta dos beijos que ficaram no meio do caminho. Faço uma plástica nas digitais pra que o mundo me esqueça, ou talvez me aceite. Passe, temos todo o tempo, mas o tempo, este, não se deixa. Esse caranguejo é maroto, não privatiza o pirão, mexe o caldo e camarão, e na maré faz sua terra. Vem me embriagar, dar saravá em formiga, cantar desafinado e rir até ser um zumbi de zóio trocado. Dias comuns são extraordinários, brilham numa pulseirinha de neon, amarram memórias nos pulsos, e, no escuro, iluminam a alegria. Umas partes de mim vão, outras ficam. Em Pipa deixei o encanto, em Jampa parti sem descanso, e voltei pra Recife, "foi a saudade que me trouxe pelo braço". Agora vou ali na curva encontrar o vento. Fui pra ficar uma tarde, não saio dali já faz anos. Nas asas de um carcará, viro areia, faço dunas, me refaço em ondas, e a cada dia sou um novo monte, um novo mote, um outro horizonte. Peço com olhos de sede pelas delícias de uma batatinha que afoga a fome, os desejos, e enche de graça as mãos vazias. E na volta, tem um coquinho geladinho pr’aumentar a pancinha e dar linha ao caminho.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Laço sobre laço

Quando você precisou
Estava sob seus pés
Fui seu caminho e calcei
dos dedos até os anéis

Lhe vi durante seu show
Você quase nem percebeu
Mas quando mais precisou
Fui eu quem lhe deu fé 

Ajustei seu xote
Para garantir que me bote
No passos da sua paixão

Vai, canta alto!
com força no coração
Seu grito me abraça
E força os nós da canção

Em cada um dos seus tons
Eu beijo a sua mão
Laço sobre laço
Lhe passo força
E faço firme os seus sons

Vou apertar mais essa fita
Que lhe desejo infinita

Dou nó dos seus traços
Enrolo os cadarços
Eu me amarro em você

Laço sobre laço
Na chuva e no abraço 
Eu me envolvo em você 

Vou apertar mais essa fita
Que lhe desejo infinita
Laço sobre laço
Lhe passo força
E faço firme os seus sons

Dou nó dos seus traços
Enrolo os cadarços
Eu me amarro em você

Vai, canta alto!
com força no coração
Seu grito me abraça
E força os nós da canção

Vou apertar mais essa fita
Que lhe desejo infinita

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

As vinte e duas

Foi nessa festa à noite
Falando com toda gente
Onde conheci aquele anjo
Onírica seda em pessoa

E dela trouxera a mim
Outras vinte e uma anjas
Que baixaram de Icaraí
Para voar em Pipa
Levaram-me por aí

Irromperam-se em cantoria
Na calçada frente aonde 
Haviam dançado forró
Em frente aos personagens de metal
Alegria a mil e as vozes em sincronia
Gritavam a alegria de estarem reunidas 

Em bela passeada
em terno mar
Navegamos nossos risos
E viajamos nossos sonhos
Amparados pelo samba que fizemos

E este mesmo samba
nos guiava os passos
Nos trançava as pernas
Nos punha embriagados
Com toda a sobriedade

Eu estou com vocês
Quero vestir 23

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Todo dia faz amanhã

Comprei um sol pra te iluminar, 
quando fui pagar, 
não tinha crédito.

Peço e me espera, 
só doze horas
O dia já tenho
E quero passar com você 

Hoje é um passo pro espaço
Desfazer-se e me enlace
Temos tempo e paixão 

A Jaciele perdeu o irmão num acidente
É falar nele e se põe 
Mas tem dois filhos

Jaci, me dê um abraço apertado
Demorado
O que sente é presente
por tempo e cuidado 

Vem ser feliz
Que o dia faz amanhã 

Se houver utilidade pro coco tomado
O nordeste vai tomá-la da mão
Nada melhor que o mar 
pra dar onda às ideias

Ir a todas as praias 
Norte e sul daqui
Para amanhecer na areia
E cavar túneis nos ares

Temos as estrelas
Nossas testemunhas
Todo riso que damos
E o choro que engolimos
Estão registrados
Na luz do tempo
Na brisa e no vento

Chove todo medicamento
Que alivie o nosso peso
Poucos pingos de chuva
E vai-se todo meu medo
Viver é emagrecimento

Tomar banho no abismo
Para nos dar pés
Pisar em solo macio
Sem atolar
Molhar-se no destino
E mergulhar no caminho

A mãe canta um reggae ao seu filho
Ele reage em cochilo
Balança seu berço
Que um anjo caído 
Lhe trouxe pra cá 

Sempre há motivos pra sorrir
Todo dia faz amanhã
Todo riso faz elixir 

terça-feira, 31 de outubro de 2023

por ti, pra mim

a noite toda
quero m'encostar em ti
a noite toda
quero te abraçar e rir
sem ter motivo
te espremer e m'exprimir
a noite toda
quero ter você aqui
quero ser alguém pra ti
e me acode
se já for hora de acordar
que o tempo todo
vou querer saber só de dormir
se aos teus cuidados
estiver  a me esculpir
só assim eu sei ser sim
num só sono
sem sede para acordar
sem noite para amanhecer
sem medo no meu paladar
a noite toda
eu quero me enrolar em ti
a noite toda
eu sonho contigo aqui
a noite toda
eu tenho mais motivo pra dormir
eu respiro teu ar
eu venero teu ser
eu destilo tua ira
a noite toda
eu fabrico ilusões
dos teus trejeitos
que são trens, caminhões
carregam cheios
de motivos e emoções
minhas ruínas,
os meus temores
e os une
ás tuas vãs intenções
num fechamento
pra ver cerrar os portões
manhã, cedinho
não há qualquer vibração
não movo um dedo
vou só saber do teus sons
dos teus pêlos
um vulto na tua visão
o cheiro doce
que o teu amor
provocou
gratidão!
a noite toda
sonho que a manhã
vire noite
para que a noite toda
possa m'encostar em ti
pra rir sem motivo
pra ter teus cuidados
te espremer e m'exprimir

*in memoriam da Havana

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

aBrigo

 Se o amor fosse propriedade
Ao menos, formaria condomínios
Quem mora contigo
E o teu vizinho
Temos todos, com teu gramado,
Carinho e cuidado
Tanto faz onde seja o churrasco
Nosso quintal assa brasa
O quanto for necessário
Pros teus anseios
E a fome do convidado
No amor, todos somos visita
E findamos num colchonete
Fino e sem torcida
Aos pés das camas
Para amanhecer
Como café
As mesas postas
Os olhos dados
E um compromisso interminável
De nos sentirmos
Nos deliciarmos
Sem garfo ou faca
Dividimos, ao fim
Em uma colherada
O doce em nossa sobremesa
Neste cenário
Ainda que belo e desejável 
O afeto impõe seus caminhos
Derruba muros
E queima a segurança 
Pois, se indiviso,
O amor
Finca-se em montanhas
Afeta suas luas
Ao dar luz
Ao que abriga
E protege

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

derreter

Espero passar a vida 
Como o tempo
Marcar minutos
Sem cronômetro
Fazer do meu jeito
O ponto
Desejo passar o tempo
Ser aventura
E contentamento
Uma pluma no ar
Saber que vida
É passagem
Pretendo caminhar
Lento
Ter firmeza nos passos
Caber no espaço 
Derreter a vela
Sem apagar
Num vento 
Mas iluminar
O quanto
Pudermos enxergar
Dos sentimentos 

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Lampejo

 Por descer as escadas
Encontro o caminho
Eu puxo a cadeira
Sento-me frente a ti
És o meu espelho
Onde vejo medos
E penteio o cabelo
Sem apelo
Lhe peço 
Que quebres o vidro
Que nos corta ao meio
Vejo te fazendo
Os mesmos movimentos
Que eu faço
E vendo
Troco teus talentos
Por tempo e desejo
Repito
em lampejo
Reparto
Sem  causar tormento
Sou traço
Em tua história 

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Swampa

Corre
Fecha a bolsa
Tira o dedo da mão
A janela tem que estar fechada
Pois quebra vidro
Bota medo
E tensão
Se tem comércio aberto!
Aceite o perigo
Acione o seguro
Que ninguém da-lhe a mão
Busca a saída
Mas a cilada
É sua casa
E condição
Andam todos tortos
Tudo mexido
Na esquina Ipiranga
E são João
Na curva de cima
Em outra avenida
Igual confusão
Não dividimos comida
Não damos guarida
Mas temos em casa
Só infiltração 
Tenha receio
Feche a mochila
Em todo lado
Ladra a ilusão
Na esquina
E meio
Tem sempre uma pedra
Em todo caminho
Não é diferente
da Ipiranga,
e São João...

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Ela não vai estar

Ainda que a noite seja tenra
e os passos largos
procuro seus olhos ante ao vidro
Pois seu repleto sorriso
abriu--se pros meus olhos
mesmo que outros olhos os neguem
Ainda que a noite seja dura
sob calçadas lisas e sujas
conforto todas as dores
em saber das luzes frias
que lhe dão vida, a cada manhã
Ainda que a noite seja surda
envolta em brumas
lhe tenho como o farol
que orienta os devaneios
dá senso aos desejos
e vitrifica os sonhos
Ainda que a noite seja oculta
e despedace minhas culpas
não esconde o lado oculto da face
onde se opõem as sensações
impostas pelo pudor
ou evitadas pela paura
Ainda que a noite seja longa ou curta
o tempo redobra a luta
e as dores no corpo
já sedimentadas por todo o dorso
Só amenizadas na loucura,
com esquecimento e alienação
Ainda que a noite seja fuga
tenha no medo, a procura
não se encontra lar
em nenhum dos recantos
que me serviram de repouso
nem nos gramados
onde depositei o cansaço
Não amenizam a ausência
que há dentro de mim
e de si
Ainda que a noite torne-se dia
e dê brilhos à porcelana em sua arcada dentária
eram as sombras que me permitiam ver
em você
os buracos que me preenchiam
Eram as dúvidas
e não as respostas
que esclareciam os medos
De dia
por ver mais que possa entender
atribuo sentidos inexatos às curvas
Encho os olhos de clamor
Mas percebo
que a atenção voltada à mim
é cartaz
encenação afigurada
em sentimentos reprimidos
dentro de mim
e partilhado pelos espectadores
em que se arvoram
as sinas

Vai e Voa

Me dá certa liberdade
Fico todo soltinho
Deixe o vento ir

Porque, meu bem
Seu ar vai, vente
Dá desordem em mim

Que sou seu doido
Sem destino
Ligo estar aí

E aqui,
Não venha e deixe
Sei que sente

Mas seu seja
Não dá um terço
Ou pressa à oração

Peço-lhe seus seixos
Rolem sem dejetos
E nos forme chão

Vai, voa e veleje
Tem seus mares
E pedras

Tem de estar
Tem de ir
E ser

Seu caminho é vela
Infla e lhe venera
Leva e louva
Em si

Ideolatria

Nossa cabeça
tem na incerteza
o caminho dos sentidos

eu vejo e atribuo
dou linhas aos pontos

Desenho horizontes
sem ter onde
lhes sustentar

A minha e a sua testa
buscam fazer festa
de todo confete

Nos bastam três manchas
pra lhe dar chances
e pinta, em relance,
fato e sentimentos

Onde há luz e tempo
junta-se elementos
e lhes faz sambar

Cada ponto e traço
têm o seu espaço
em nossas certezas

Criam descompasso
por mero cansaço
da nossa telha

Se olharmos bem
tudo o que contêm
está no tutano
de nossos decanos

Deles é de quem
roubamos
tudo o que pensamos

Pouco nos há além
Disso nos compomos
Traços e troncos
Letras e tomos
Os quais nos puseram
e nos impõem

O Carrossel dos seus Bichos

Seu rosto é mancha em um perfil
Checo, no momento, o quanto de si,
Em meu pensamento, realmente existiu

Releio suas mensagens e poemas
Ouço seus áudios já tocados
E me toco
O seu caminho me é visível
Sem que possa ter um retrato seu

O espírito dos seus trejeitos
Habita os meus meios
Sem lhe dar pistas
Nem deixar lhes veios

As imagens que tenho de si
Podem ser invento
Ou proveito

Os sabores que senti
São parte dos seus rumos
São portas pros desenhos
Guardados em camadas
Formadas
Por esboços de comportamentos
E delírios

Rodam em um carrosel,
seus bichos
Onde a cada giro
Há novos seus


Me preenchendo e submergindo

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

POSE-it

 Já, agora, nem olho pra baixo
Mesmo n'altura dos pensamentos,
não tem ares em que me encaixo,
tampouco me carregariam os ventos

As cordas entrelaçadas se desprendem
dos dedos em que se fazem os nós
Nos caminhos tortos se fendem
mergulham como estivessem sós

Tão poucas diferenças as temos
e tão distantes, as nossas vozes
nos recorrentes sinais dos tempos

Na ruptura tida em diminutas doses
busca-se em cada vão por prêmios
condicionados um-a-um nas poses.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Choro em Chuva

É a tristeza que nos faz cantar
Ao ser triste faz-se o desencanto
de tudo o que nós temos tanto
e pouco o que não seja pranto

Quando se diminui os passos,
e há tempo para um mergulho
sente, no calcanhar, cansaços
E a melancolia causa embrulho

É a chuva que nos faz correr
pelas nuvens das que cobrimos
E os medos tornam-se delírios

O choro é chuva dentro de você,
derrama quando ninguém vê
todo clima em que lhe anuvia

domingo, 4 de dezembro de 2022

Petit four

Em todo o tempo,
de todos os dias,
falta acalento

Falta argumento
que nos aplique
temperos nas ideias

Sabores nas conversas

Daí lhe janto as palavras
a cada garfada
nos seus trejeitos

Como seus cílios,
beijo seus segredos
para que a sua loucura
dê prazo ao meu desejo

Estenda o espaço
em que prevejo
caber tudo que virá 
entre tudo

e tudo entre nós

Sinto seus brios
em leves rios
a carregar os prantos
que tivemos

sob os encantos
de quem vive

Para se entregar
à foz
de seus caminhos

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

O que flor será (Sorte em ser-te)

cada amizade é uma folha
cada pessoa, uma árvore
cada paixão é uma estrela
cada coração, universo
cada amor é semente
cada ser, uma sorte

Espinhaço

 De início
já se notava
um indício
do seu jeito

Com o tempo,
o que tem por dentro
aflorou
suas quinas

aquilataram o espaço,
determinaram o passo
e privaram a cabeça
dos seus traços

O que for que faça
tem sua graça
e o seu contrário

Soma ou Suma

 sendo só

         uma

                soma

seu som

é sintoma

           sem

               dor

sai da sua

           sanha

senta-se

            e sinta

cento e sessenta

             tons

    de sabores

Em suma,

            assuma!


AmarOmar

 amar o mar
me faz querer
marejar
mover e mexer
mergulhar
imenso
em
imerso
firmamento
que
disfarça os pensamentos
para me ater
me atar
a ser quem sou
inverso
e avesso à dor

Marcianos

 O seu beijo tem tonto encontro
porque te quero tanto
em qualquer dimensão

Se tivesse dinheiro
deixaria o mundo inteiro
pra lhe dar o espaço

Vamos voar sem freio
que o rumo do meu peito
tem sua direção

Eu sei que sou suspeito
mas vou dar um jeito
pra lhe ter por perto

 Entre em nossa nave
vamos voar suave
e pousar na imensidão

sábado, 20 de agosto de 2022

My place is no place

 Abaixo da escada 
interminável
do café Bricolete
a musa de Camamducaia,
uma moça despojada, 
tanto quanto desastrada
pintada toda de branco,
com cabelos vermelhos
e eu
planejávamos trovoadas
a serem cometidas junto
ao nosso pequeno DOG-GOD
de sete centímetros
que não parava de ser atropelado
infinitamente
ao lado do café da escada
Exatamente todas as vezes
em que alguém abria a porta do café
caiam todas as bicicletas
à sua frente
e a gente
sem tentar parar o mundo
levantava uma magrela junto a outra
Foi nesse instante desconexo
em que conhecemos as duas namoradas
possuidoras de uma das bicicletas
que numa de suas quedas
amassou o já amassado
chicletinho rosa
onde estava escrito
"Juntas para todo o sempre"

domingo, 10 de abril de 2022

aDoraDor

Meu médico
já não receita poesias no escuro
Deixa-me tomar litros
do obscuro
sem dizer onde excretá-lo
No parque onde fazia exorcismos
a grama crescia, virava arbustos
Onde me prendia 
 aos prantos dos moluscos
Os arredores dos meu bichos
tem mais dentes cravejados
que oblíquos
Estacionado seu calço,
nos alpistes.
Os ossos descalcificados das turbinas
impulsionam já, desafetados,
nosso clima
Atravessam em nossos ralos caldos,
de bubuia,
as mensagens atiradas na labuta
Tem dias que se baixa o sol
pelas beiradas
sem dizer às suas folhas
por quais estradas
vão cair ou revirar
a sua alma

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

AMIGO

Sei bem que as amizades se dissolvem, na mesma intensidade em que se firmam. Somos sujeitos distintos, porquanto o tempo nos defina. 

Nosso caminho tem atoleiros, como tem  mata-burros, estende tapete e cria absurdos. Estes degraus estabelecem o impulso ao nosso interesse. 

Sinto ter pisado em falso muitas vezes. Foi a gana de escalar que me fez cair. Querendo mostrar o que não possuía, te fiz rir, de mim.

 Em tempo, ao me pensar além da razão, dei vazão ao que não se quer impedir. O que lhe pedi, faria por ti e, por mim, gostaria de ouvir.

Sei que traço caminhos cruzados, sem sentido ou enviesados. No fim, de tudo o que aprendi contigo, restam abraços de um caldo divertido. 

Posso dar muito mais ao mundo do que me considero, inadvertidamente, capaz.  A idade, a mudança, a alteridade, Aleluia! Sobrepassam o senso irrazoado que nos domina tempo e hora.

Rogo que perdoe meus arroubos, deixe de lado meus instintos. De todo modo, a cada cálculo que fizer, estará somado o balanço do barco ao chocalho da rede. 

Em cada atitude esperada, posso deixar um desejo, dar passo errado e me desculpar.

Pouco sei do caminho traçado, mas fazemos curvas, olhamos pros lados, desenhamos o mundo. Estamos (f)errados! 

Nosso desenho é rabisco, mas o esboço traz previsão. Guardo sempre ao lado, o balanço, o aprendizado, pra ser menos criança e ter no calço, a sua razão.

Mar, sol, calma e emoção!

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Oriente

 Corre na chuva
como quem busca abrigo,
não vê perigo
e escorrega
Volta pra casa logo
cheio do mundo
e vazio no ego
Molha seus planos
feitos por anos,
como papel
Faz novo mapa
onde detalha
sua oposição
Tenta ir longe
nas coordenadas
e encontra erradas
as suas linhas
Não tem caminho 
que planejado 
esteja ao lado
ou contramão
Seu GPS
está quebrado
e toda rua
é uma prisão
Quando desiste
 e anda à solta
é que se encontra
foge à razão

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Arroz quebrado e feijão bandinha

 Eu queria sair
Queria me encontrar
Andar de bar em bar
Pra trombar o desejo

E quando te vi
Sem jeito e lar
Uma causa de existir
Eu senti o seu beijo 

O mundo mostra a mim
Que tem tanto sem jeito
Como eu 
Que me sinto no peito
No apogeu
Procurando entender 
E me entendendo
Um pouco mais

Cada lado que temos
Frente aos lados demais
Viram dados pequenos
E nos trazem paz

Nossos grandes problemas
Tidos, então, atrás
Mostram tortos poemas
Verso e letra a mais

Prezo que o tempo
E o que aprendo
Tornem me capaz
De esquecer o como
Cheguei à soma
Em quanto espaço
Passei através

Volto pra casa
Cheio de certezas
Que amanhã, na mesa
Já deixo pra trás

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Dendrito

 Um feixe
puxa um ramo
e derrama o rumo
por engano
A corda estica
e acorda cores
neste pano
Um corpo,
parado na cama,
pede ao fio,
roga ao ramo,
ora à corda
por um curto
- Despeje as dores
do meu plano

quarta-feira, 24 de março de 2021

A realidade é plasma

Desprezado cidadão, 
pedir-lhe-ia perdão 
pelos atos praticados
 em nome desta nação 
já doente e aos pedaços. 
Só que tô em recessão, 
pois tenho uns assuntos pendentes 
com zonas diferentes 
do coração

Inominado sujeito, 
tô que tô sem freio no peito 
e desço abaixo a ladeira da devassidão. 
Já não tenho mais jeito 
e, ainda assim, tenho quem me queira,
 que levante a bandeira, 
hasteada no chão. 

Não tenho mais cores que não sejam cinzas. 
Não tenho mais árvores que não sejam madeira. 
Não tenho mais plantas que não sejam estrume. 
E ainda nem chegamos no cume, 
há muito o que subir, 
para chegarmos embaixo, 
como quem carrega um fardo, 
para depois soltá-lo, 
sem compromisso.

segunda-feira, 22 de março de 2021

VAIA

 Ideologia,

eu quero uma pra você,

eu quero uma pra você abandonar

Pois, quando não há razão,

há silêncio

ou gritaria desvairada

A sua propensão à censura

A sua inclinação ao desprezo

Sua sabedoria

vai despencar

do alto do último andar

Seu conhecimento

Seus livros lidos,

eu vou queimar

Vou botar fogo nas suas ideias

Voou achincalhar seus pensamentos

Vou falar

Vou falar

Vou falar muito

Até as suas entranhas me expulsarem

da sua intolerância

do seu desrespeito

E longe de si

ou dentro de si,

por ter sido devorado,

posso ter garantido 

meu direito à alegria

Porque, afinal,

a felicidade é uma obrigação legal


quarta-feira, 17 de março de 2021

Sociedade Ilimitada

 Não quero um sistema 

que me liberte

Mas um mecanismo 

que me permita

Não quero um desejo 

que me devore

Mas um sonho

que se realize

Não quero um sol

que se ponha

Mas uma lua 

que não adormeça

Não quero voar

sem asas

Mas pisar forte

com pés descalços

Eu quero poder pensar

e dizer

o que me contradiz,

em bom som,

com boa dicção:

- Você é quem me faz feliz!

Esse é meu refrão

sem tom,

sem harmonia,

Que diante à sua presença

não tenho limites,

não se devora,

e não se põe

o alvorecer da aurora


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O rei da barriga

 Quebrei muitas coisas

outras tantas, as consertei

Por ser homem de palavras

abri e fechei as travas

corrompi a lei


Deixei pessoas aos prantos

outras tantas, as que amei

Por ter o fulgor, faltava

e quase me arrebentava

nas entranhas, o meu rei


Tenho, em mim, todas as chagas

as que existem e as que inventei

Por mais que buscasse

não me curava

de todos males, os acessei


Voltam a sangrar, as feridas

após anos de escondidas

destrançam-se, as cicatrizes

ampliam a imensidão do tempo

e deixam, em carne viva, o corpo