Páginas

INQUIETO

"A inquietação através da experiência e da crítica parece que se rompe de encontro a uma rocha profunda, ampla e inamovível de modelos consentidos de interpretação, de lealdades e práticas." (Jürgen Habermas)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Na bossa dos seus beiços

Na borda de um desfiladeiro
eu me seguro, eu me esgueiro.
Entranho nas raízes do seu medo
quando deito os sonhos ao seio.

Eu sei que já faz mais de mês e meio
que não procuro a sombra em seu cabelo,
mas tomo para mim sua água fresca
contando que se porte e me obedeça.

Orbita um mundo todo em sua boca
com gravidade forte, cê me provoca
à um mergulho em seu universo.

Só tenho apego mesmo ao seu pescoço
e giro em torno aos sons que oiço,
pois que em um doce beijo eu me desfaço.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Cê Mente

O que tens
na mente
é o que te
metem
é o que te
mentem
T'aqui teu
sêmem
T'aqui tua
semente


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O que vier é Verão

Como o tempo que sou,
após o sol se por,
eu entardeço.

Como o clima que tenho,
mando a chuva
após o vento.

Com o frio que sinto,
eu formo gelo
e me contenho.

Passo e não percebo,
apago e escureço.
Eu não tenho nome

Solto as folhas no chão,
nascem as flores e ostento
e, de novo, eu queimo

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Há de Haver

Onde houver conforto,
onde houver carinho,
onde houver sorriso,
faz o seu caminho

Onde houver certeza,
onde houver ternura,
onde houver beleza,
entra e se segura

Onde houver ouvido,
onde houver conversa,
onde houver abrigo,
nada lhe atravessa

Onde houver silêncio,
houver contentamento,
onde houver sentido,
prenda o pensamento

Onde houver razão,
onde houver destino,
onde houver canção,
viva em desatino.

Onde houver tensão,
onde houver lamento,
não houver paixão,
saia de mansinho.

vAdia

A VIDA
AINDA
SURPREENDIA
NO DIA
DA DESPEDIDA
E MESMO NA
COVARDIA
O DIVERTIA

A VIDA
TÁ DIVIDIDA
EM DÁDIVA
E DÍVIDA
A SAÍDA
É DEIXAR
SENTIDO
EM SI

HÁ NADA
EM CIMA,
QUE ENSINA
COMO VIVE
A VIDA
SADIA
DESAPERCEBIDA
E MACIA

Desompensado

Ainda não esqueço a Juliana,
não me esqueço da Amanda,
não se esquece assim.

Ainda não me esqueço da Renata,
não me esqueço por nada.
não me esqueço da Joana.

Ainda não esqueço a Beatriz,
não esqueço se me fez feliz,
não me esqueço da Soraia.

Ainda não esqueço a Adriana,
não se esquece o que engana,
não esqueço a Catarina.

Ainda não esqueço a Margarida,
não lhe esqueço querida,
não se esqueça de mim.

Ainda não esqueço o meu passado,
não esqueço o que me tem cuidado.
Mas agora, só há espaço pra ti.

scendere


Eu quero beber a noite
quero chover
eu quero me asfaltar no chão
quero chorar

Eu quero pilotar a Lua
me pintar de estrelas
eu quero o escuro
para me apagar

Eu quero reascender
quero nascer de novo
me desencontrar

Eu quero me vestir de grama
quero semear
eu quero florescer meu corpo
não quero parar

Café para dois

Que as flores todas sejam rosas
Que todo amor seja dito
Que tudo seja isto
O que sinto por ti

Que os caminhos deem aqui
Que os desejos sejam feitiços
Que estejas comigo
Se estivermos juntos

Que os cheiros se sintam
Que os beijos tenham destino
Que se diga, que se grite
O que me desatina

Que te soltes
Que me tenhas
Que nos tenhamos
Que tudo nos seja pouco

Que este pouco seja tanto
Que nos seja bastante
Que nos encante
E que nos tenhamos pra si

Que um ponto sejam dois
Que teu café para nós dois
Que tua canção
Seja meu pão

E depois

Fetiche

Agora, já pode entrar em todos mares
Mergulhar todos olhares
Navegar no vento
no tempo
Pode deitar o seu intento
Já pode fluir
Agora, já tem mais que pazes
Abraços, beijos e lares
Já pode ser
Já pode sair
Pode voltar
E mais
Agora, já é seu sonho
Já pode viajar
E nunca retornar
Ao ponto
Em que se perdeu
Já pode se encontrar
Consigo
E conseguimos todos
Juntos
Um poucado a mais
E ainda pouco
Pode se encontrar
Aqui mesmo onde está
E muito além
Agora ja pode viver
Pode ser
E se deliciar

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Rabeira

Na beira da escada
A cada degrau
Na beira da estrada
Um passo a mais
Na beira do nada
Tem tudo acertado
Na beira de cada
Bueiro

Na beira se acaba
O passo atrás
Na beira desaba
O seu ideal
Na beira do barco
Navega
Na beira do seu
Litoral

Na beira de cada
Cabeça
Na beira de todo
Boçal
Na beira despenca
Uma pera
Na beira desanca
Seu mal

Na beira encontra
O caminho
Na beira não volta
Pra trás
Na beira de sua toada
Desiste de algo a mais
A beira de sua pessoa
Não tem mais final

domingo, 4 de outubro de 2015

Fadídica


Quando anoitecem os pensamentos,
quando se encontram os corações,
quando reunimos os destinos,
amanhecemos as intenções.

Quando caminhamos juntos,
quando dividimos emoções,
quando anunciamos nossas vidas
acalentamos a condição

Enquanto entardecemos nosso riso,
quando alguém nos dá a mão,
temos novo olhar e viço,
damos novo nome ao compromisso.

Enquanto chove em meu descanso,
quando já não há mais ilusão,
encontro pagamento ao meu serviço,
derreto a alegria em cada vão.

sábado, 19 de setembro de 2015

Atemporal


Te dou um beijo
e nao esqueço mais
desses dias
do teu cheiro
do teu peito
Te levo comigo
Afinal,
tenho um tanto de ti
Sou teu sujeito
indeterminado
Te tenho comigo
e aqui ao lado
estará sempre o sabor
da tua boca
do nosso encontro
No meu destino
e no teu
agindo
intempestivo
Por qualquer caminho
em algum trajeto,
és o meu moinho
que me destrói
e me revigora
Num último beijo,
Toda nossa história 

domingo, 30 de agosto de 2015

Fenêtre

Construímos um mundo de mentiras chafurdadas em sorrisos deslavados, esfregados em nossa cara esfomeada.

Um mundo poluído de desejos, cheio de vontades e tão pouca satisfação.

Arquitetamos nossa rede de contatos bem talhados, todos muito bem informados sobre tudo e todos.
Montamos uma vitrine para o vazio, onde tudo é belo, mas inexistente. Onde o que se vê está longe do presente. Onde tudo tem sentido.

Formamos um consenso sedimentado na discórdia e na raiva, o que reforça a pobreza do mundo mesmo em que vivemos.

Vestimos nossas aparências da riqueza que não temos, damos ares, damos cores, damos cheiros, sem federmos.

Desfilamos nossa festa sem fim, onde bebemos sem cair, onde gozamos sem se foder e rimos, eternamente, sem chorar.