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INQUIETO

"Mas sigo o meu trilho. Falo o que sinto e sinto muito o que falo - pois morro sempre que calo." (Affonso Romano de Sant'Anna_Que País é Este?)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Mulher de Minutos

Poesia de Monica Montone


Não sou mulher de minutos
Daquelas que os segundos varrem
Para debaixo do tapete sujo

Não pinto os cabelos de fogo
Nem faço tatuagem no umbigo
Me recuso a usar corpetes e cinta-liga

Há sementes em meu ventre
São palavras que ainda não reguei
Prefiro guardá-las em silêncio
Até que o tempo amadureça os meus minutos
E a vida me contemple com seus frutos

Eu não borro os meus cílios na solidão da noite
Nem pinto meu rosto com a palidez das manhãs
Meu corpo é feito de marés
Onde navegam mil anseios
Eles são como veleiros sem direção
Porque eu estou sempre na contra-mão.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

As Cachoeiras do Santo Gabriel

Poesia e foto de Juliana Biscalquin


"Saúdo a todos, com ares de festa, com vinho de pupunha, com beijú e kiampira e um peixe bem muquiado. Envio meus sinais de fumaça de que retornei e quase intacta. Grata aos que vibraram. Entre piolhos já exterminados, queimaduras negligentemente cuidadas, picadas de origem anfibológica, vômitos e diarréias (sobre os quais seria dificil poetizar) sobrou ainda mais disposição para descobrir mundos novos, dentro e fora de mim. Katehe naka. Katehe xita. Estou de volta! Com os mesmos 20 e poucos anos e a bagagem um pouco mais pesada. "


São mais de cinco os mercenários, donos da cidadela
E mais de três os bêbados cristãos ordenados
Mais de nove os políticos endinheirados
São quarenta mil cento e trinta e sete¹ os explorados

São vinte e três as etnias
Imensuráveis as riquezas linguísticas
Que nas bocas opacas e oprimidas
Se convertem em palavras mínguas


O caos urbano
de um desregrado crescimento
Faz a ‘Bela’² continuar dormindo
De tanto acanhamento

Fome, dor, suicídio
Perspectiva, subjulgamento, omissão
51 é pra dar sentido
Ao que esfarinhou o coração

(O)Brigada Infantaria de Selva
Que à fronteira traz proteção
Pelo suor, pelo trabalho,
Colômbia!
Pelas promessas e prostituição

A mais indígena das cidades brasileiras
Tem Maria, tem Joana e Edivanson
São tukanos, barés, banivas-
-“Me chamo Cacique Henrique de Almeida³”

O xibé e o tabaco
Adiam o ronco do estômago, dolorido
Indigesta realidade manauara
Na minha barriga de branca bem alimentada

Observações:

¹ IBGE 2007

²"Bela Adormecida" - De São Gabriel da Cachoeira, avista-se a Serra de Curicuriari. Foi apelidada com o nome da fábula infantil por suas formas parecerem a de uma mulher deitada e dormindo.

³ Nomes reais, assim como os personagens do primeiro verso.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Irrenunciável

Poesia e foto de Raphael Alves



Se de pedras e asfalto ao avesso
fazem-se essas ruas vadias
É em nuviosa melodia
que ao canto desapareço
...
Pelo tempo, o nosso apreço
inda maior seria
Se no fim da ventania
soprasse o recomeço
...
Com punhado de terra e água
misturados sorriso e mágoa
fez-se história de raiz forte
...
Contada à nossa maneira
com rimas de vida inteira
e capítulos para além da morte

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

BRANCA



Amanheci apaixonado em ti
e se tinha receio por ti, o parti!
Vou declarar-te os anseios
pra me encontrar nos teus seios.

Estou viciado em tua chatice
e as palavras que nunca te disse,
vou despejá-las numa só frase:
Vou te comer em catarse!

Vou devorar teus assuntos
para criar em conjunto

o Universo na cama.

Nossas estrelas serão o teto,
nossa foda será o concreto
e essa vida será nossa trama.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

FODA!



O seu pisar
é ímpar.
Seus calcanhares,
pazes.
As suas pernas,
ternas.
A sua coxa,
poxa!
A sua anca
espanca.
A sua bunda
abunda.
As suas costas,
postas.
Os seus seios
cheios.
O seu pescoço
eu coço.
A sua boca,
almoço.
Os seus cabelos:
lê-los.
O seu carinho,
ninho.
O seu sorriso,
piso.
Os seus olhares,
lares
e você toda
é FODA!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Vamu Botá Pá Frente

Poesia de Daniel Fleming e Vilauba Herrera - www.resmungosnovos.blogspot.com


Vem_____Vista a sua peita,

Vai ______entre nessa barca

Vem _____e vamos pro churca.

Vai ______Vamu botá pá frente!

Vem_____________________

Vai ______Demente, indigente, tenente

Vem _____Vamu botá pá frente!

Vai______Quem faz a vida é a gente.

Vem_____ Faça de você, contente.

Vai______________________

Vem_____ Mude sua língua.

Vai______Invente novos motes.

Vem_____Vamu botá pá frente!

Vai______________________

Vem_____Invista na sua força.

Vai______Vamos catar a moça.

Vem_____Vamu botá pá frente!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Os mEUS EUS e os tEUS

Não me venha com baboseiras,
de explicar nossa existência.
As suas soluções caseiras,
acabaram em deficiência.

O mEU dEUS são os tEUS
os tEUS EUS são os mEUS
o DEUS mEU é o EU
e o EU tEU é o sEU DEUS

Há uma infinidade de deuses,
que, em conjunto fazem os meses.
Não somos só universo,
somos o verso de um pluriverso

Eu sou o DEUS do mEU EU
EU sou o mEU se for tEU
EU sou DEUS sendo tEU
E o tEU DEUS somos NÓS

Santa Hipocrisia

Papemos prontamente o papa
esse popular não nos escapa.
Tem coragem de pedir castidade
e pensa estar na antigüidade.
.....
Pra ser papa tem de estar gagá,
pra nunca poder se indagar
se as besteiras que fala
estão aos conformes da sala.
......
Ponham esse doido no hospício!
Sua doutrina traz malefício
para a cabeça de um crente.
.....
Use sempre o preservativo!
Veja o que passa no coletivo
Pra ter a verdade na mente.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Poema da Batalha

Poesia de Gabriela Correa
Música de Thiago Correa



Sabes quando aperta-te o peito?
Angustiado permanece, preso
Tente respirar com todo este peso
Sufoca a alma e o orgulho
Pensas que quero ferir-te?
Machuco a ti e a mim

Equívocos são como pedras
Atingem a cabeça que se põe a ressoar
Vibração que arde, corta coração
Retalhos de sentimentos largados ao chão
Colho-me, varro-me.

Aspire meus erros e os jogue fora
Limpe os vestígios e lustre os absurdos
Com esforço talvez se tornem glórias

Procuro a fronteira que me separa da exatidão
Sou imigrante, não tenho permissão
Choco-me com a guarda, violentamente
Mas sou fraca, perco a batalha sangrenta
Dentre tanto sofrimento hasteio a bandeira da paz

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Aurora


Se a tristeza consumir seu dia
levante-se para uma nova guia
que fará tudo a seu bel prazer,
assim que ela puder crescer.

Só se lembrará desse novo dia
que lhe matará a melancolia
e fará sempre algo por você.
É sempre assim que vai ser.

Em todas suas decepções
terá muitas outras opções
para conseguir restabelecer.

Batam em conjunto novos corações!
E esta ressonância nos dará trações
para todo dia a Aurora nascer.

Pedido de adoção



Para esse pedido de adoção
encho o meu ar de comoção
para aceitar um filho pródigo
que tenta desvendar seu código.

Conheço-lhe tão pouco,
mas sinto-me tão seu.
Prometo só lhe deixar aos prantos
e retornar para entoar seus cantos.

Quero me banhar na sua luz.
Sua geografia é que me conduz
com atitude de ripa-na-chulipa.

Quero me esbaldar nas suas praias
e converter suas guapas de saias,
pois, sou filho de Floriano com Floripa.

Fortaleza


Em um encontro inesperado no busão
foi que aconteceu, talvez, a solução.
Pena estar, em sua Fortaleza, ancorada
e eu, perdido, numa vida abandonada.

A sonegação feita no seu beijo
é, mesmo, a resposta que almejo
de uma mulher instigante no acento
que faz de minhas palavras, vento.

Só não faça desgastar meu repertório
e mê de algo mais que terno e irrisório,
pois, quero lhe ter, seja quando for.

Posso amargar a sua ausência
se estiver certo da anuência
em poder ver, sempre, a sua cor.

Ditadura da honra

Poesia de Roberto Madureira


Tocava nos autos registros históricos
Qual não fosse insolência do Capitão do Mato
Sangue do sangue, ainda assim insensato
Capaz de aflorar instinto pouco bucólico

De dia é a troca: sangue por asas
E a depravação, ao cair da tarde
E os seus infurnados em estéreis senzalas
Com o rosto cortado e a carne que arde

Pois eis que chegamos na modernidade
E a bagagem do crápula ainda perdura
Eu carrego pra vida, ainda que dura
Que irmão é irmão, não tem cor nem idade

Mas se espalha no ar cheiro de capital
A máscara cai antes mesmo de abril
Macho se afina e Deus vira mortal
Pelo tal do dinheiro que move o Brasil

Pois é chegada a hora de um novo apartheid
Segregar: homens, meninos e corruptíveis
Se a Justiça é cega e não os enxerga
Cabe aos homens fazê-lo, indefectíveis

Avante honestos, dominem, vão além
Coloquem de pé a ditadura da honra
E pra que desprovidos de caráter ainda possam lutar


Dê-lhes apenas um punhado de notas de cem