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INQUIETO

"Mas sigo o meu trilho. Falo o que sinto e sinto muito o que falo - pois morro sempre que calo." (Affonso Romano de Sant'Anna_Que País é Este?)

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Si

Dentro do que pertenço,
meu pressentimento,
é que tenho pretenso
pertencimento
ao silêncio

Não o silêncio mudo das turbas
o silêncio sem desejo
Mas o silêncio do descanso
das vígulas,
que desencadeiam
o prosseguimento

O meu silêncio
é sempre sinal de continuidade
É pausa
nunca parada
É paragem
não a estação

Penso que pertenço ao silêncio
mesmo havendo em mim
todo o barulho

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Vida, Longa Vida

É assim que eu conduzo a vida.
São essas as curvas da esquina
O vento que toca o destino
sem entrada, e sem saída

Há precipícios, de início
Pula-se um passo, e o pessimismo
estende pontes com corda.
Me amarra e enamora

Todo atalho tomado é perdido,
um caminho sem sentido,
um rumo sem destino. E
no desmantelo, eu me materializo.

O perdimento dos meus sentidos
desenganados e desmentidos
enviesaram o quê sou constituído

No debate, há algum movimento
ocorre mudança e o tormento
faz jus ao que Vi, Vivi; e investigo!

sábado, 18 de novembro de 2017

Ataca e Ama

- Eu mudaria toda minha vida
pra ficar com ela.
- É serio, eu faria isso!
- Eu falando isso..
logo eu, falando isso!
- Você esperava isso?
- Que eu falasse isso?
(Quisesse compromisso,
sem o sumiço
que tem inventado
por qualquer caso.)
- Eu mudaria tudo por ela,
pulava da janela,
me trancaria atrás da porta.
- Não me importa,
tudo que for aorta:
sangre!
(Um tempo a mais
no sangue.)
- Eu viraria do avesso,
rezava ao contrário,
dobrava meu terço!
(Faz tudo pelo proveito,
que tem no peito.)
- Eu faço o que lhe for bom!
(sobe um tom)
(e se entorta...)
- Meu corpo, "compatriota",
comporta
a lama toda do mangue
e o enxame de outrora
assenhora
os temores da prece.
- Vem, regressa pra mim!
("O futuro não tem fim,
nem você sem mim".)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Dragonfly Eye-Brown

Quando eu mudei de país
larguei tudo para trás
foi só pra te ter
pra perpetuar
Eu me casei
me reproduzi
Tive uma filha
que se casou
e te apresentou ao mundo
e seu esposo,
nunca teu pai,
foi imundo
Te apagou a alegria,
te escureceu os dias
Não havia amanhecer em seus dias
"In the mornings, was no mornings"
Não havia lua à noite
Mas a sua força,
o nosso laço
te faz crescer,
resistir
e alcançar
Seja eu e você,
siga nosso passo
e vamos
pertencer
ao Espaço!

terça-feira, 11 de julho de 2017

otró¶ico

Vou prum outro prédio,
pro sítio ao lado,
onde me encaixe.
Vem, vambora
tenho a minha história
- Dou Tora, Dotôra
Me ensina a aprender,
professora.
Leia meus poemas,
sente o sintoma,
convalesça
Onde estou agora?
Piso em que grama?
Quanto vale a grana?
O que lhe faz viver?
Já tem um tempo,
umas horas,
que não sinto por dentro
uma esmola
do que houve aqui
E, agora,
já não há mais glória,
razão pra existir
Vem, vambora
Tá frio lá fora
Vou te agasalhar
Me dá a mão,
dois beijos na face
um puxão de orelha
e uma foice
Foi-se o tempo
em que me deixava levar
Por ser leve
Sou mesmo levado
Eu tenho fogo no rabo,
não é mero detalhe
é um agrado,
o tempero do prato
Vamos almoçar?

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Samba Enredo

Vem, me dá a mão,
mergulha comigo.
Entrega-se,
como me entrego.

O amor é imensidão,
um mar
sem proporção,
um rio sem fundo,
um trampolim.

Pois, pule comigo
num desatino.

Deixa seu medo
por um segredo.
Estamos juntos
e temos seguro.

O nosso abraço,
por mais que segundos,
nos protege
e assegura
o nosso enredo.

Flaming

Esse incendio
nao matou pessoas queimadas
nao dizimou aldeias
nao fez chorar paises
por suas estradas

Esse incendio
nao queima hectares inteiros
nao ultrapassa fronteiras
nao chama atencao
dos bombeiros

Esse incendio
tambem comecou com um raio
em um pau seco
e insensato

Esse incendio
tambem arde acordado
tem o seu lume entortado,
e traicoeiro

Esse incendio
quase nao se ve por ai
pensam estar apagado
pois queima dentro de mim

terça-feira, 20 de junho de 2017

PeDrógão Grande

Depois das cinzas que o fogo espalhou por todos os cantos.
Depois de todo o sofrimento e desespero.
Das dores e queimaduras.
Depois do trânsito e circulação interrompidos.
Depois das vidas tolhidas, do choro incontrolado e desmantelo.
Depois do medo

A chuva lava o que sobrou de nós.
Lava o sangue, o pó e as lágrimas.
Lava a dor, o choro e o atropelo.
A chuva que cai lá fora é a mesma chuva que cai aqui dentro.
A mesma chuva que lavou a alma da Ana Luiza.
Lava agora o resto que sobrou dos sentimentos.


domingo, 18 de junho de 2017

Arengueiro

Olha
Olha pra lá
Olha além daqui
Olha o que não se vê
e vais entender por quê
sou assim
um estrupício
um pedaço sem fim
um começo do que não tem
fim
um desejo de ti
Venha pra cá
Venha me fazer feliz
deixa te fazer feliz
Eu vou brigar contigo,
mas cada briga
será
pra que tu
sejas
meu melhor abrigo
Minha casa
Minha prisão
e alforria

sábado, 17 de junho de 2017

Condenados à Fiambreira

A vida vai ceifar a sua vida
lamina por lamina...
O tempo vai cortar teu corpo
te desfazer todo
A alegria é uma faca fina
te constitui
e te dilacera
Mas não se poupe
tenho, aqui, no pensamento
que o que pode ser morte
pode ser refinamento


*argumento de Luís Lima

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Ahn Hã

Meu doce,
prove meu segredo
o que há de sagrado
em meu medo.
Ponha sutileza em meu jeito
e me tranquilize.
Paralise
tudo o que não for seu cheiro.
Meu doce,
me dê sua palavra,
tão calma,
me dê seu silêncio,
sua alma.
Trace, comigo, um caminho
uma tática de paz
um plano para que o passado
nunca seja empecilho
para nada nesse mundo.
Meu doce,
vamos mergulhar fundo
que a vida é curta
e não há mais sentido
nisso tudo
que o seu
e o meu
absurdo.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

            B   ORA
ORA   ORA   ORA
DEM   ORA   ORO
ÉHO  RA,B   ORA
CHO   RAT   ORA
AGO   RAF   ORA

HOR   AAG   ORA
MOR   AOM   ORO
FUR   AAB   OLA
ROL   AMO   RRO
LHE   DEV   ORA

ORA   ORA   ORA
AGO   RAF   ORA
AGO   RAM   ORO


quarta-feira, 17 de maio de 2017

(sem título)


Cloridrato de Diamantina

O dia mantinha
seu rumo
quando, de tardezinha
olhei
dentre os teus olhos
fundo
Depositei esperança
Uma aposta
decisiva
em teus lampejos
e cada um de Teus trejeitos
Treme tudo o que vejo
No tempo que tenho
Para estar contíguo
Te enxergo
Cego
Em meu peito

Tenho uma Casa

Do tanto que já andei por aí
Do tanto que vou andar
posso dizer, sem problemas
eu tenho um lar

Por mais que não tenha destino
Por mais que não tenha fim
posso dizer de estopim
tenho onde ficar

Mesmo que não saiba onde
Mesmo que não saiba quando
tenho que dizer agora
eu tenho uma casa

Tão Tanto com Tudo


Onda de Fundo


Anos Luz


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Pérfuro Cortante

De uma lapada
uma secada em teu corpo
uma palavra

Em um instante só
num estalo
te separei

Numa carona dada
uma conversa curta
muito sentido

A tua resposta
machuca e corta
o meu destino

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Casa de Apostas

Nesta reta final,
as equipas estão muito inconstantes,
os jogadores estão muito inconstantes
e os resultados são imprevisíveis.
Um gajo há de ganhar
qualquer coisa
pra saber o que fazes
Como ganhei de presente
a nuvem que me fez sentar
no banco de azulejos azuis e brancos
do outro lado da calçada,
na frente do coreto,
às margens do rio,
que assistiu passivamente
o escaldar dos nossos
últimos dois anos
As pombas
já quase bicam meus pés
por me pensarem morto,
um alimento inglório,
envenenado
de rancor e suor
E ainda penso nas sardas do seu rosto
que ainda me parecem constelações
de astros que fuzilam
o sentido do meu universo
E acima do Paralelo 38
tudo é receio
Já de volta à sacada
onde passo a maioria dos meus dias
De onde já não vislumbro
o semblante do mosteiro,
fábrica de frígidas,
tomo um cigarro
e o café
Já é outro dia,
já são outros tempos
O tempo tem outro clima
e outro, o mundo que vejo
Sentado
no alto da Rua da Alegria
na esquina da Couraça da Estrela
o frio caminha comigo
faz tremer as frias pernas
da estudante que passa
em seu traje negro
Já é outro sítio
Já é outro tempo

domingo, 23 de abril de 2017

#rancateta

Eu chupo
como se mundo
não houvesse
como se ninguém
me ouvisse
e de fato não se houve
Eu sugo
como se fundo
não tivesse
como se nenhum vaso
fosse raso
e, de certo, não há fim
Eu curto
como se o couro
não puxasse
e esticasse
toda minha pele
até a mim

terça-feira, 18 de abril de 2017

Dou-me

Vou te contar um segredo:
- Eu tenho medo!
Tenho medo de sair
Tenho medo de não ser
Tenho medo de ser demais
e tenho medo de já não ser mais
Tenho medo de ser engolido
e engolir o mundo todo
Tenho medo de escapulir
e de estar sempre vindo
Tenho medo do mundo
Tenho medo de quase tudo
Tenho medo de você
Tenho muito medo de mim
Também tenho medo do escuro
Eu tenho medo do absurdo
por ter medo do buraco
que o medo deixa em mim
Vou contar pra você:
- Eu tenho, mesmo, medo do mundo
Mas me mete medo mesmo
a coragem que o medo me dá!

[13:13, 18/4/2017] +55 31 9954-2004: BurgBand

           
       
[13:14, 18/4/2017] +55 31 9954-2004: Nessa rua tem vários puteiros                      
[13:14, 18/4/2017] +55 31 9954-2004: nestes puteiros ja tocaram os Beatles                      
[13:14, 18/4/2017] +55 31 9954-2004: nestes Beatles, tinha um menor de idade                
[13:14, 18/4/2017] +55 31 9954-2004: esse menor se chama George                    
[13:15, 18/4/2017] +55 31 9954-2004: a polícia foi ao puteiro pra prender o menor George que toca com os Beatles                      
[13:16, 18/4/2017] +55 31 9954-2004: a polícia fez uma putaria                      
[13:17, 18/4/2017] +55 31 9954-2004: por isso, chama_se puteiro

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Liberatura

Nem a noite
e nem o sonho
te fizeram dormir

Nem o medo
e nem o drama
te fizeram sumir

Nem o riso
e nem o choro
te fizeram mentir

Não foi um grito
nem um sussuro
que te fizeram ouvir

Não foi o jeito
nem foi o modo
com que mostraram pra ti

Nem mesmo o texto
nem mesmo a letra
fizeram, a ti, redigir

Não tem carinho
não tem carícia
que te mate o prazer

Nem mesmo o cheiro
nem mesmo o som
fazem teu corpo tremer

Não tem destino
não tem desejo
que lhe ponha um câncer

Tem só segredo
tem saudades
do que te fazes ferver

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Estrondo

Quis ser sua brisa.
Quis ser seu vento alísio
que tocasse a sua face
e que nos definisse.

Quis ser sua garoa,
fina e duradoura.
Quis ser chuva boa
que nos refrescasse.

Quis ser o seu éter
que lhe ventila e sustenta.
Quis ser um só pensamento
que nos conduzisse na reta.

Quis ser um suspiro
que acolhe e acalenta.
Mas acabei sendo medo,
raio, trovão e tormenta.