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INQUIETO

"Falo o que sinto e sinto muito o que falo - pois morro sempre que calo." (Affonso Romano de Sant'Anna_Que País é Este?)

sexta-feira, 29 de maio de 2026

agulha

 som é agulha
                        finca
fere
       ferve
       febril
frevo
          fervo
fome
         femme
fastio
fome e fastio
                        fast e festa
                        falsa
                        como a Lua
                        que só mostra 
                        um lado de si
escute as feras
                            mas não se fira
                            seja fire
é era de ira
                     iria sem íris
e o rio que corria era frio
                                             e fremia
o frisson da gata 
e do eremita
                       me imita
                       e não minta
                       és tinta repetida
meu amor, não é mito. pede mais tinto
                        isso eu sinto
e assinto ❤️
                      eu assunto
desejo é unto
                         no qual me besunto
                         e beijo
eu durmo
                 eu sumo

*analu e dado

quinta-feira, 28 de maio de 2026

enxurrada

em tanta secura
um pingo d'água 
é lago

em tanto silêncio 
um som
é agulha

fere como a chuva
toca seu solo
e penetra

de tão calado
por tanto tempo
arrebento

num escândalo 
tudo samba
sem sola

as letras contidas
e tão comprimidas
explodem

num mesmo átimo 
as frases soltam
seus saltos

e, agora, as mais puras
expressões da fúria 
lhe estouram


quarta-feira, 27 de maio de 2026

urgências

Hoje à noite vai chover
amanhã não
a tarde vai se dissolver
entre o seco e o molhado

Assim que acordar
tudo vai correr
vai lhe interromper 
num só estampido

Ponha-se em pé 
apronta suas coisas
pega as ferramentas
siga a lista de tarefas

e cai sobre o seu ser
toda a desavença 
entre o que desejou
e os seus afazeres

De tanto sonhar
por ter tantos planos
ergueu um oceano
sobre sua planície 

segura este tranco
que por querer tanto 
acaba sendo escravo
dos seus pensamentos


quarta-feira, 6 de maio de 2026

Matéria Escura

tudo o que vemos 
é ausência 
uma trama em que
assentamos 
o concreto

mais que o sólido 
todo etéreo 
se esvazia
e nos consolida

tudo o que tocamos 
nos torna
tacanhos
sendo que o espaço 
entre o que se toca
tece os sensos

o que pensamos 
é processo
e nada o que está posto
tem passagem

desolados
tateamos o acaso
a procura de um piso
e pisamos

descalços 
em falso 

na cabeça 
temos que o senso
e os sentidos
que os guiam
brotam flores

só que tortos
nossos guias
botam postes
e alegrias
desvirtuam
nossos portos

os mapas distorcidos
em sua fonte
guiam todo horizonte
e o rumo
tido como sorte
bota toda nossa vida

em morte