Páginas

INQUIETO

"Falo o que sinto e sinto muito o que falo - pois morro sempre que calo." (Affonso Romano de Sant'Anna_Que País é Este?)

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Marcianos

 O seu beijo tem tonto encontro
porque te quero tanto
em qualquer dimensão

Se tivesse dinheiro
deixaria o mundo inteiro
pra lhe dar o espaço

Vamos voar sem freio
que o rumo do meu peito
tem sua direção

Eu sei que sou suspeito
mas vou dar um jeito
pra lhe ter por perto

 Entre em nossa nave
vamos voar suave
e pousar na imensidão

sábado, 20 de agosto de 2022

My place is no place

 Abaixo da escada 
interminável
do café Bricolete
a musa de Camamducaia,
uma moça despojada, 
tanto quanto desastrada
pintada toda de branco,
com cabelos vermelhos
e eu
planejávamos trovoadas
a serem cometidas junto
ao nosso pequeno DOG-GOD
de sete centímetros
que não parava de ser atropelado
infinitamente
ao lado do café da escada
Exatamente todas as vezes
em que alguém abria a porta do café
caiam todas as bicicletas
à sua frente
e a gente
sem tentar parar o mundo
levantava uma magrela junto a outra
Foi nesse instante desconexo
em que conhecemos as duas namoradas
possuidoras de uma das bicicletas
que numa de suas quedas
amassou o já amassado
chicletinho rosa
onde estava escrito
"Juntas para todo o sempre"

domingo, 10 de abril de 2022

aDoraDor

Meu médico
já não receita poesias no escuro
Deixa-me tomar litros
do obscuro
sem dizer onde excretá-lo
No parque onde fazia exorcismos
a grama crescia, virava arbustos
Onde me prendia 
 aos prantos dos moluscos
Os arredores dos meu bichos
tem mais dentes cravejados
que oblíquos
Estacionado seu calço,
nos alpistes.
Os ossos descalcificados das turbinas
impulsionam já, desafetados,
nosso clima
Atravessam em nossos ralos caldos,
de bubuia,
as mensagens atiradas na labuta
Tem dias que se baixa o sol
pelas beiradas
sem dizer às suas folhas
por quais estradas
vão cair ou revirar
a sua alma

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

AMIGO

Sei bem que as amizades se dissolvem, na mesma intensidade em que se firmam. Somos sujeitos distintos, porquanto o tempo nos defina. 

Nosso caminho tem atoleiros, como tem  mata-burros, estende tapete e cria absurdos. Estes degraus estabelecem o impulso ao nosso interesse. 

Sinto ter pisado em falso muitas vezes. Foi a gana de escalar que me fez cair. Querendo mostrar o que não possuía, te fiz rir, de mim.

 Em tempo, ao me pensar além da razão, dei vazão ao que não se quer impedir. O que lhe pedi, faria por ti e, por mim, gostaria de ouvir.

Sei que traço caminhos cruzados, sem sentido ou enviesados. No fim, de tudo o que aprendi contigo, restam abraços de um caldo divertido. 

Posso dar muito mais ao mundo do que me considero, inadvertidamente, capaz.  A idade, a mudança, a alteridade, Aleluia! Sobrepassam o senso irrazoado que nos domina tempo e hora.

Rogo que perdoe meus arroubos, deixe de lado meus instintos. De todo modo, a cada cálculo que fizer, estará somado o balanço do barco ao chocalho da rede. 

Em cada atitude esperada, posso deixar um desejo, dar passo errado e me desculpar.

Pouco sei do caminho traçado, mas fazemos curvas, olhamos pros lados, desenhamos o mundo. Estamos (f)errados! 

Nosso desenho é rabisco, mas o esboço traz previsão. Guardo sempre ao lado, o balanço, o aprendizado, pra ser menos criança e ter no calço, a sua razão.

Mar, sol, calma e emoção!

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Oriente

 Corre na chuva
como quem busca abrigo,
não vê perigo
e escorrega
Volta pra casa logo
cheio do mundo
e vazio no ego
Molha seus planos
feitos por anos,
como papel
Faz novo mapa
onde detalha
sua oposição
Tenta ir longe
nas coordenadas
e encontra erradas
as suas linhas
Não tem caminho 
que planejado 
esteja ao lado
ou contramão
Seu GPS
está quebrado
e toda rua
é uma prisão
Quando desiste
 e anda à solta
é que se encontra
foge à razão

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Arroz quebrado e feijão bandinha

 Eu queria sair
Queria me encontrar
Andar de bar em bar
Pra trombar o desejo

E quando te vi
Sem jeito e lar
Uma causa de existir
Eu senti o seu beijo 

O mundo mostra a mim
Que tem tanto sem jeito
Como eu 
Que me sinto no peito
No apogeu
Procurando entender 
E me entendendo
Um pouco mais

Cada lado que temos
Frente aos lados demais
Viram dados pequenos
E nos trazem paz

Nossos grandes problemas
Tidos, então, atrás
Mostram tortos poemas
Verso e letra a mais

Prezo que o tempo
E o que aprendo
Tornem me capaz
De esquecer o como
Cheguei à soma
Em quanto espaço
Passei através

Volto pra casa
Cheio de certezas
Que amanhã, na mesa
Já deixo pra trás

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Dendrito

 Um feixe
puxa um ramo
e derrama o rumo
por engano
A corda estica
e acorda cores
neste pano
Um corpo,
parado na cama,
pede ao fio,
roga ao ramo,
ora à corda
por um curto
- Despeje as dores
do meu plano

quarta-feira, 24 de março de 2021

A realidade é plasma

Desprezado cidadão, 
pedir-lhe-ia perdão 
pelos atos praticados
 em nome desta nação 
já doente e aos pedaços. 
Só que tô em recessão, 
pois tenho uns assuntos pendentes 
com zonas diferentes 
do coração

Inominado sujeito, 
tô que tô sem freio no peito 
e desço abaixo a ladeira da devassidão. 
Já não tenho mais jeito 
e, ainda assim, tenho quem me queira,
 que levante a bandeira, 
hasteada no chão. 

Não tenho mais cores que não sejam cinzas. 
Não tenho mais árvores que não sejam madeira. 
Não tenho mais plantas que não sejam estrume. 
E ainda nem chegamos no cume, 
há muito o que subir, 
para chegarmos embaixo, 
como quem carrega um fardo, 
para depois soltá-lo, 
sem compromisso.

segunda-feira, 22 de março de 2021

VAIA

 Ideologia,

eu quero uma pra você,

eu quero uma pra você abandonar

Pois, quando não há razão,

há silêncio

ou gritaria desvairada

A sua propensão à censura

A sua inclinação ao desprezo

Sua sabedoria

vai despencar

do alto do último andar

Seu conhecimento

Seus livros lidos,

eu vou queimar

Vou botar fogo nas suas ideias

Voou achincalhar seus pensamentos

Vou falar

Vou falar

Vou falar muito

Até as suas entranhas me expulsarem

da sua intolerância

do seu desrespeito

E longe de si

ou dentro de si,

por ter sido devorado,

posso ter garantido 

meu direito à alegria

Porque, afinal,

a felicidade é uma obrigação legal


quarta-feira, 17 de março de 2021

Sociedade Ilimitada

 Não quero um sistema 

que me liberte

Mas um mecanismo 

que me permita

Não quero um desejo 

que me devore

Mas um sonho

que se realize

Não quero um sol

que se ponha

Mas uma lua 

que não adormeça

Não quero voar

sem asas

Mas pisar forte

com pés descalços

Eu quero poder pensar

e dizer

o que me contradiz,

em bom som,

com boa dicção:

- Você é quem me faz feliz!

Esse é meu refrão

sem tom,

sem harmonia,

Que diante à sua presença

não tenho limites,

não se devora,

e não se põe

o alvorecer da aurora


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O rei da barriga

 Quebrei muitas coisas

outras tantas, as consertei

Por ser homem de palavras

abri e fechei as travas

corrompi a lei


Deixei pessoas aos prantos

outras tantas, as que amei

Por ter o fulgor, faltava

e quase me arrebentava

nas entranhas, o meu rei


Tenho, em mim, todas as chagas

as que existem e as que inventei

Por mais que buscasse

não me curava

de todos males, os acessei


Voltam a sangrar, as feridas

após anos de escondidas

destrançam-se, as cicatrizes

ampliam a imensidão do tempo

e deixam, em carne viva, o corpo

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Terreirão

 Não aceita a idade

o rio corrido

as correntes margeiam

os troncos cortados

Não aceita suas rugas

a velhice dada

o caminho traçado

e o percorrido

Não se mete na blusa

com que pulava muros,

roubava frutas

e rezava

Não corre seus passos

e o prazo o engole

acelera o tempo

e reduz o espaço

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Ca La Nuri

 Do caos

à paz

Da turba

ao isolamento

Dá hora

ao tempo

De mim

para ti

todo o meu vento

sábado, 9 de janeiro de 2021

Tijolo

 


A vida é uma reticência e ponto

Cheia de final sem recomeço

Plena de começos sem fim


A vida são vidas feitas

Sólidas ou rarefeitas

Não permanecem ou passam


Em cada trampolim

Pulamos 

Sem saber o pranto


Temos todos fatos

Em nossa fuça

Mas não há recusa


O que sabemos

Tão pouco vemos

Nos direciona


E nesse fim

Há destino

Ou novo fio



TiTolo

 



Jogo-lhe tijolo

na testa

Por uma finestra


Por todo seu caminho

Tem um carimbo no seio

Bem no meio


O que lhe faz assim

Sendo você, sem mim

São as veias


Um movimento

Carrega seu trilho

Sem desancar


Na correria

Perde seu Lar

E as paredes


Meu tijolo,

Agressão que seria

Constrói!


O seu rumo dói

Destrói

E desfaz

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

O nome da palavra



Só o tempo sabe o quanto estamos passados

Nem o vento 

Nem a chuva

Têm a mais puta ideia do quanto vivemos


A palavra proferida aos ares

Contém mais que seus significados

Carregam a vida

Vivida e renunciada


Nossas rugas e cicatrizes dizem tanto

Dos caminhos

Dos atalhos

Procurados na ânsia de nos encontrarmos


Uma frase tem espaços entre as letras

As lacunas do intentado

Onde moram pretensões

Por aventura aos nossos lados


Não há um só código

Não há um só dado

Há mais entre o silêncio e a fala

Que pensa nosso antepassado

domingo, 20 de dezembro de 2020

Lar de

 Já não tenho casa

Ou nunca tive conforto

Não pertenço a lugares

Mas a sentimentos

Que mudam a cada instante

Portanto moro em apartamentos

Em condomínio de emoções

Das minhas próprias emoções

Cheio de elevadores e escadas

Esse edifício pega fogo a todo instante

Há sempre um incêndio

E preciso correr de mim mesmo

Pra lugar algum

A única saída plausível

É a janela

Mas que acaba me fazendo ver

Ter mais belezas aqui dentro

Que suposto nos olhos alheios

Portanto fico

E queimo

O fogo arde e cura

Se desaba um andar da minha brasa

Já tenho um novo lar para viver

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

O Pentelho Elétrico

 Ei fio, liga na tomada

Acende o pavio na tensão

Chamusca maçarico no cabelo

e vamo incendiar toda nação


Tem toda energia neste solo

Carregada desejosa e sem razão

Então pulemos juntos nesta dança

não importa qual coloração


A corda foi cortada p/ confete

Algemas vão virar celebração

pois se abrirem, é comício ou zoação


Tire a sua blusa e se junte

aqui o que não falta é divisa

à desmaiar metade e a outra pisa.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Carta ou Convite

 Tenho palavras tortas atrás da porta

Eu bato

Caso tu não te importas

Abra

Cadabra

Uma palavra é agulha com linha enfiada

Me tece um fio 

E enrascadas

Sê o penhasco de que me lanço

Com amor ou ranço

O que mais se pode querer

É conhecimento

Atado à tesura

Não me penitencia

Pelo desespero

ou silêncio

São resumos do descontentamento

Expressão do tempo

Penso que tanto movimento

Cause ranhuras

Umas fresas na sua postura

Ou espanto

Estamos na praça

Tem tanto vento

Tão pouco banco

Procuro um assento

E ao te ver 

Quero tanto uma prosa

Quase uma briga

Uma rinha

Do meu jeito maluco

Imprudente

De fazer desencanto

Eu percebo

Que percebes

Ja não temos traquejo

Temos ataques

Travamos a luta

E neste tamanho

Brinda comigo

Num amargo

Cálice de cicuta 


sábado, 17 de outubro de 2020

Afogar-se sem medo

Vamos tentar ser felizes enquanto estamos vivos
Porque a tristeza é uma garantia
E não vai mudar se não se fizer nada a todo momento
 
Com as drogas que se puder pra alterar o ânimo
Com o dinheiro que se puder colocar fogo para se alterar o ambiente
E o esquecimento do que uma mente já prejudicada possa se beneficiar
 
Os rios continuarão passando contra se não se deixar levar
E ao navegar a favor
Engrossa a correnteza
Do que garante ao mundo
O permanente estado de tristeza
E tensão contrária por alguma felicidade
 
Abrir uma cerveja no café
Acender um cigarro no fogão
E mergulhar em águas turbulentas
Afogar-se
 
Pra vc digo
Penso em estar presente
Decidindo que o Rio Mondego precisa de mim
E o Tejo pode me aguentar

sábado, 10 de outubro de 2020

Rabisco

 Não quero lápis,

nem borracha,

posto o que escrevo

tem tanto relevo

quanto o tempo.

Não apago meus erros

por serem lampejos

de novas constelações.

Há um outro Universo

a cada caminho tomado ao avesso

pelo tamanho do seu interesse

Por que às vezes,

quando não se quer nada,

é que se consegue algo!

sábado, 1 de fevereiro de 2020

AntiCoagulante


É no traquejo dos tempos corridos
onde perdemos sentido,
nas esquinas.
Em um lampejo, temos destino.
Como quem tapa ferida,
acende um cigarro,
para descansar o lume,
de forma ardente,
em pele árida.
Nesse pranto, quando se tem prazer
na dor,
passa obscuro, o profundo significado
das mazelas.
Nesse ponto, o ímpeto da vida
é só destruição.
É no calor dos quartos ressecados pelo outono
onde se escondem os mais apurados pensamentos,
onde não há divergência entre as vontades,
nem se pode encontrar esperança.
É no fulgor do desespero interiorano
onde encontramos resposta
para o quê não se tem pergunta.
Tudo se pode ter
quando nada se quer.
Tudo pode
o ser
que não lhe souber.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Cão

Hoje, não vou!
Não vou!
Não voo.
Haja o que vi,
vivi,
vim ver.
Hoje,
eu não vou,
não volto,
não devolvo
minha vida.
Eu vazo.
Eu, vaso
vazio?
esvazio...
Envaso!
"Sê vadio,
mas não volta"
Não há diáspora.
Nem me revolto,
que o vento
e as veias
destes ossos
vão perpetuar
o ócio
dos meus destroços
Hoje, eu não vou.
eu sou!
Tento ser,
em vão,
o desvanecer
do cão
a adormecer
dentro de mim.
E de cada ser
que fica aqui.
Pelo que vi,
pelo que vivi,
pelo que sei,
do que senti,
não vou!
Hoje, eu não vou!

sexta-feira, 26 de abril de 2019

viaggio in un bacio

a minha lingua pede à sua lingua
uma letra
uma palavra que me diga
dita
seja maléfica
ou bendita
a pista por que passa
a minha vida
me dê um sopro, um suspiro
do que seja seu estilo
para eu lhe ter comigo
suas palavras
a minha lingua pede a sua lingua
numa frase que não desdiga
pede que me sirva de comida
me explique e descomplica
os problemas do mundo todo
com um beijo
a minha boca pede à sua boca
que não seja coisa pouca
tenha desejo e paixão
para viajarmos
o mundo todo
num só beijo

desmantelo

quisera com lágrimas
dissolver o desencanto
presente, agora, em todo canto
se possível fosse
derreteria o cinismo
diluiria com meu pranto
a dor e o desespero
quisera com lágrimas
se possivel fosse
lavar a face da mentira
polir a fronte da desídia
para salvar os indolentes
de sua paralisia
quisera que as lágrimas
fossem antídoto para o despudor
que libertassem múmias
se possível fosse
de seus pensamentos
quisera com lágrimas
consertar a miopia
fazer ver
a quem já ama a cegueira
e com isso
acertar o caminho
mas se as lágrimas
nem as palavras
não são poções mágicas
para os insensíveis
há sangue que possa verter
em nome do impossível

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Discricionariedade vinculada

No passo que puder dar,
no caminho que puder seguir
a vida leva-se
e se vai
esvaindo,
sem vaidade,
pelas posses
por que passam
os preceitos
que assumimos
No toque de um calcanhar,
com um joelho mambembe,
o tempo passa
e espaça
o percalço
Qual seja o trato
e os obstáculos impostos,
aposte
tudo o que tiver,
por sorte
ou propósito
Só o seu espólio,
no movimento intercalado
dos astros,,
determina
se posta-se calado
ou se comove
No tempo que tiver
e espaço que conquistar
tome o chicote ao alcance
da mente,
em hipótese
ou plano
que te comande
Seja o tanto que ande,
no tempo de agora
ou de antes:
Te faz testemunha
infante
do acaso!